Depois do Almoço
A olhava de longe, como se fosse um crime o que fazia. Ela lia um livro, desta vez um de capa verde, e no local onde geralmente ficam os títulos tinha uma mancha marrom. Então, acho que o livro que tanto a compenetrava era verde com o titulo escrito em marrom. Eu não conseguia ler o titulo de onde estava. Isso me frustrou um pouco, e uma curiosidade tomou conta de mim. Seus cabelos cobriam levemente seus olhos. Ela, com uma espécie de sopro, fazia com que os cabelos que a atrapalhava voassem para o lado, o que não adiantava muito, já que por varias vezes tinha que repetir o processo, mas sua atenção não saia dos escritos. Ela estudava em um prédio distante do meu, mas usávamos o mesmo percurso para chegar a nossos destinos. Ela estava sempre lendo, quando não era o livro de capa verde era outro. Sempre depois da hora do almoço eu a via sentada em um banco na frente do RU e eu sempre parava a uns metros de distancia do banco que ela usava e ficava admirando-a. A primeira vez que a vi, foi assim: Eu estava no ponto de ônibus, era umas nove horas da noite, estava voltando para minha casa, quando do outro lado da rua meus olhos a encontrou. Acho que foi uma das poucas vezes que a vi sem estar fazendo nenhum tipo de atividade, já que quando não estava lendo estava concentrada em qualquer outra coisa. Logo depois de a ver ali parada no ponto, em questões de minutos, seu ônibus chegou. Eu a achei linda! Seu rosto era tão sereno. Seus cabelos estavam preso-soltos, e caiam sobre os ombros. No dia seguinte comecei à ver sempre, seguíamos pelo mesmo percurso todos os dias, mas ela nem me notava, acredito eu, já que estava sempre com os olhos fixos nas palavras dos livros e demais coisas. E cai entre nós, é meio difícil prestar atenção ao seu redor quando se está lendo. Ela não andava rápido, mas também não andava devagar, era um compasso que eu gostava de acompanhar. Minha tristeza começava, quando ela virava e eu tinha que seguir reto, mas sabia que a veria, pelo menos depois que percebi a continuidade da rotina, de a ver depois do almoço. Um dia essa “regra” foi quebrada, pois não a avistei por nenhum lugar. Foi frustrante, foi confuso, pois eu sempre esperava a hora de vê-la, mesmo que de longe, naquele banco. Mas eu sabia que um dia isso poderia acontecer, afinal, ela poderia não almoçar um dia ou então ocupar aquele horário com outra coisa, ou, mesmo que não crendo muito nesta hipótese, ela poderia não ter nada para ler. Ao invés de ficar pensando em possíveis motivos, mentindo para mim mesmo fui à biblioteca pensando: “Não será tão difícil achar um livro verde de titulo marrom, é só em meio a milhares de livros procurar os verdes, mesmo não sabendo por qual gênero começar”. Mas estava disposto a acha-lo, era uma forma de tê-la por perto. No segundo andar da biblioteca lá estava ela com cinco ou seis livros, ela os examinava e os voltavam fechados à mesa. Parei em uma prateleira próxima a mesa dela. Era uma prateleira que conhecia bem. Cálculo, álgebra linear, mecânica dos fluidos, geometria analítica, eu conhecia bem aquele lugar, muitas horas gastas com aqueles livros. Continuei próximo a mesa que ela estava, procurando um dos meus livros favoritos de cálculo,para estudar, mas na verdade eu para disfarçar que a espiava. Foi então que me surpreendi. Ela se levantou e foi andando para onde estava, tentei não a olhar, só que para meu susto, após alguns minutos dela perto mim, ela se vira e me indaga:
- Com licença, por um acaso você tem algum livro para me indicar?
Era isso mesmo? Ela estava falando comigo? Eu perguntei para que especificamente que ela queria. Ela riu e disse que era para álgebra linear, e que queria um livro que a ajudasse a estudar melhor, um livro que tivesse exercícios com resoluções. Eu a sugeri um que gostava bastante quando estudava álgebra. Ela me agradeceu e voltou para a mesa que estava antes. Meio que não acreditando no que tinha acontecido, eu achei o livro que procurava e sentei em uma mesa próxima a dela. Eu não conseguia parar olha-a. Era tão linda a cara de: “não estou entendendo nada” que ela fazia. Algum tempo depois, tomei coragem, levantei fui até ela e disse: “você quer que eu te ajude?” Ela meio tímida agradeceu e negou. Eu gentilmente sorri e voltei para minha mesa. Logo depois ela se levantou e foi em direção à saída, mas deu meia volta e veio em minha direção. ”Desculpa, mas acho que vou querer sim” e nós sorrimos.
Que belo sorriso, que voz doce, que riso gostoso.
Foi assim que eu e Clara nos conhecemos e até hoje rimos quando nos lembramos de nossa história e do fato de ter um louco que a seguia. Ela diz que nunca tinha me visto até o dia da biblioteca, o que me mostrou que eu estava certo, a respeito dela nunca ter me notado antes, por conta de sempre estar lendo quando eu estava por perto.
É, pelo menos álgebra linear serviu para alguma coisa.
Pietra Carolina Andrade'
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