A rua tenebrosa.

Todos os dias via um homem, com seu palito e sua maleta, caminhar até o ponto, todos os dias de segunda a sexta, sem exceção, ele ia para aquele ponto, em um mesmo horário, chegava todo dia para pegar o mesmo ônibus. O que chamava minha atenção ele tinha um mesmo olhar, uma mesmo feição no rosto, não conseguia distinguir se era de tristeza ou tédio, mas de uma coisa tinha certeza de felicidade não era. Aquele cotidiano começou a me incomodar, o que ele fazia, para onde ia, ele não tem ninguém para preparar seu café da manhã e te dar um beijo de bom dia,ou alguém para esperá-lo chegar ? Será esse o motivo de sua angustia porque ele não falava com ninguém? Todos os dias, esses pensamentos tomaram conta de mim, o que aquele homem pensava, o que o fazia ficar daquele jeito? Como alguém sem sentimento, como alguém sem alma.
Um dia levantei da cama decidida a pegar o mesmo ônibus que ele, mesmo sabendo que não servia para mim, mesmo sabendo que chegaria atrasado ao trabalho e ainda por cima correria risco de ser demitida. Mesmo com todas essas circunstâncias ruins a meu favor, decidi naquele dia, descobrir,  o que fazia aquele homem ser daquele jeito,  o que ele ia fazer todos os dias no mesmo horário, pegando aquele mesmo ônibus.
Então levantei rápido da cama para não me atrasar, tomei um rápido café da manhã, e desci, andei o mais depressa que pude, não queria perder o ônibus. Mas para minha surpresa, naquele dia o homem não apareceu. O aguardei por horas, mas nem um sinal dele. Acordei todos os dias daquela semana com o mesmo entusiasmo, mas sempre que chegava lá, uma frustração tomava conta de mim. O que tinha acontecido com ele, será que tinha viajado, perdido o emprego? O que havia acontecido com aquele homem.

Oh meu Deus!

Será que tinha morrido ou pior.

Se matado?

Inúmeros pensamentos rodeavam minha mente. Será que realmente tinha se matado? E te tivesse, não fiz nada para ajudá-lo, não descobri o motivo daquele sofrimento.

Oh Deus !

 O que aconteceu com aquele homem.

Eu já não acordava com tantas expectativas, afinal de contas tinha semanas que o homem simplesmente desaparecerá. Em meu dia de folga decidi acordar bem tarde, mas algo me acordou naquela manhã, algo tirou completamente meu sono, como se tivesse roubado-o. Então levantei e fui até a janela.
Meu coração começou a bater mais rápido. Será mesmo real o que estava vendo?
O homem.

O homem estava lá em pé no ponto esperando seu mesmo ônibus no mesmo horário. Tinha que me apresar faltavam apenas 10 minutos para o ônibus dele passar. Coloquei um jeens e um casaco por cima do pijama mesmo, precisava ganhar tempo, nem tomei café naquela manhã, desci as escadas correndo precisava poupar tempo a espera do elevador, corri o mais rápido de pude, o ponto não era longe da minha casa na realidade era em frente, mas precisava ganhar tempo, não podia perder o ônibus.

Ufa! Consegui chegar a tempo. Pensei.

Logo que cheguei o ônibus parou, meu coração batia muito rápido, eu finalmente ia descobrir para onde aquele homem ia, o que fazia ele ficar daquele jeito. Deixei-o subir primeiro e com um espaço de duas pessoas subi. Ele se assentou em um banco nos fundos e em um banco um pouca mais atrás me sentei. Ele parecia até um espírito, não expressava sentimento algum. Após uns quarenta e cinco minutos de viajem ele finalmente deu sinal, então me preparei para segui-lo, não sabia muito bem como fazer isso, não queria que ele percebesse que o estava seguindo, então ele levantou, esperei ele descer e logo atrás o segui. Andamos por quase uma hora, a caminhada desse homem era bem longa será esse o motivo de tanta tristeza, a longa jornada até o trabalho. Não, acho provável que não, aquele olhar não me parecia nem um pouco com desanimo. Entramos em uma rua meio deserta, acinzentada e úmida, parecia até uma vila abandonada. No final dela tinha uma loja que me parecia uma daquelas lojas que se vendem caixões. Temia que ele fosse para lá e realmente o que temia estava acontecendo, era lá que aquele homem trabalhava, em uma loja de caixões, naquela rua tenebrosa. Decidi entrar para o ver trabalhar, mas pensei.

Não acho melhor o observar do lado de fora.

Então me sentei em um banco que tinha quase em frente da loja. Fiquei lá o observando quase o dia todo. Varias pessoas entravam naquele lugar, quase todas aos prantos. Aquele homem os atendia com uma frieza que parecia até que ele era o difundo.

Que emprego horrível ! Pensei.

Vender caixões, mexer com a morte.

Era como se ele vendesse o fim do poço para aquelas pessoas. O dia de trabalho desse homem era resumido em ver pessoas tristes e desiludidas e era ele o responsável por vender aquilo que significa a elas o fim das esperanças.

O fim da vida.
Ele finalmente começou a arrumar suas coisas e então me preparei para ir embora. Peguei o ônibus e voltei para casa, não esperei por ele, não queria correr o risco dele perceber que o segui. Naquela noite não conseguir dormir de imediato, fiquei pensando, pensando e pensando, o motivo dele ser daquele jeito. Um estalo veio em minha mente.

Mas é claro! Gritei em voz alta

Aquele homem lidava tanto com a morte que ela passou a fazer parte da vida e comportamento dele, por isso agia como se fosse um espírito, como se não tivesse alma. Realmente seria muito cruel ver aquelas pessoas todos os dias e viver como se fosse à pessoa mais feliz e viva do mundo. Ele vivia como se a morte já tivesse o alcançado, para quando ela o alcançar a dor não fosse tão dolorosa.

Mas... Será... !

Passei horas pensando em outras hipóteses, sobre por que ele era daquele jeito, mas tudo parecia não fazer sentido no final do raciocínio. Decidi então que não ia mais pensar nesse assunto, tinha que viver minha vida e ele a dele.

Era melhor assim.

Desliguei minha luz e dormi.

Mas não por muito tempo.

No meio da noite acordei e comecei a escrever essa carta e agora já são quatro horas da manhã e chego ao final dela. Espero que entenda o motivo de tê-la entregue a você, precisava dizer tudo o que pensava, não podia deixar isso tudo preso em minha mente. Se te insultei, se invadi sua privacidade me desculpa, mas preciso perguntar.

Qual o motivo do seu olhar?

Atenciosamente,
Tua vizinha.

(Pietra Carolina Andrade')



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